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Ele estava lá, preso. Fazia um ano, sete meses e quatro dias que Hildo Batista estava naquela cela.
No início ela até que era aconchegante, sabe? Afinal, esperava-se algo muito pior pra quem foi pego assaltando um banco em cidade do interior. Porém, com o tempo a carceragem estava deplorável.
Dodô, como era conhecido na cidade, 21 anos, sempre foi um cara pacífico e trabalhador. Morou sua vida toda com a mãe na cidadezinha, aonde sempre foi bem visto. Ganhava seu pouco, mas suado dinheiro numa marcenaria. Nunca chegou a conhecer o pai, sabia onde ele vivia, tinha oportunidade, mas não o procurava, pois o velho também não queria saber dele.
Enfim, no fatídico dia, ele estava “possuído” por algo sobrenatural. João, marceneiro chefe, estava passando maus bocados com a oficina e teve que demitir Batista. O dito cujo, lembrou-se que havia visto um 38 nas coisas da mãe, roubou-o e foi em direção ao único banco da cidade.
Chegou lá, mandou todos pro chão. A gerente ficou nervosa, nunca tinha passado por aquilo:
- Hildo! Pára com isso! Vamos resolver!
- Pro chão, pro chão! – gritou ele, ecoando a voz pelo saguão.
Infelizmente ela não foi pro chão e ele não teve dúvida, atirou sem piedade no meio do coração!
O povoado era tão do interior, que nem a justiça do país chegava lá, então quem fazia o julgamento era: o povo, o delegado e seus 3 subalternos. Com essa, Hildo, foi para a prisão perpétua.
A duas semanas atrás, Fabrício chegou para lhe fazer companhia na cela. Fabrício era o malandrão da cidade. Passava “o rodo” em todas as guriazinhas possíveis e imagináveis. Fazia nada da vida, ou melhor, sua vida era isso e somente isso. Nesse dia, ele foi pego pelo prefeito, adivinha com quem? Sua filha! O pai não pensou duas vezes em manda-lo pra delegacia.
- Dodô, Já descobriu como fugir daqui?
- Como assim? Nunca nem pensei nisso.
- Capaz? Tu vai ficar trancado o resto da vida aqui?
E assim foi – o malandro incitando o pacato presidiário a fugir dali. Algumas horas se passaram e já tinham montado um plano de fuga: dia, hora, maneira, tudo! Tudo esquematizado, só faltava aguardar.
Dia 24 de junho, céu ensolarado, frio normal para uma cidade do sul. Lá foram eles: driblaram o único guarda que ficava por ali, roubaram as chaves, prenderam o próprio desacordado e sumiram. Fabrício, que de malandro não tinha nada, voltou pra casa. Foi pego 4 horas depois.
Hildo Batista sumiu, desapareceu do mapa. Ninguém sabe onde ele foi parar. Uns dizem que foi comido por raposas do mato, outros juram de pé junto que viram disco voador, ET’s e ele foi abduzido. Tem até os que conseguem falar com o espírito dele, que vaga pela noite sombria.
Exatos 2 anos e 2 meses depois, 23 horas da noite, toca o telefone da delegacia:
- Alô, delegado?
- Sim, o próprio.
- É o Dodô e…
- Dodô, seu “fidamãe”! Onde tu tá maldito? Vou te caçar!
- Calma! Tô em São Paulo. – exatos 1193 quilômetros da pequena cidade.
- Como tu foi parar ae?
- Não importa. O que importa é que eu quero voltar. Quero voltar a ser preso aí.
- Tu é louco?
- Fiquei preso 1 ano e 5 meses aqui, mas sei que tenho que terminar de cumprir minha pena, só não tenho como voltar.
- E eu não tenho como buscar.
- Mas…
- Dodô, eu vou fingir que essa ligação nunca aconteceu. Vive tua vida, rapaz!
- Mas seu deleg…
- Boa noite. Passar bem. – disse desligando o telefone.
Dodô, hoje, é conhecido por “Jesus” na Praça da Sé. Mendigo, maltrapilho, sem um puto no bolso. Vive de esmolas e restos de comida achadas no lixo, ou no mercado municipal. Quando consegue, dorme em abrigo especial para esse tipo de pessoa. Se não consegue, tenta a sorte nos inúmeros viadutos e marquises do centro da cidade grande. Às vezes passa dias sem comer e higiene que é bom, nem pensar.
Realmente, a cadeia de Santa Halinges era melhor.
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September 18, 2008