Tem horas?

- Tens… horas? – perguntei a ele.
Não era uma pergunta como qualquer outra que tu ouve na rua todo dia. Eu estava num bar, na beira da praia em Tramandaí, a noite. Ele já havia me fitado quando entrou no bar. Aliás todos os homens do bar estavam com os olhos em mim. Estava me sentindo a “gostosona” do pedaço, afinal, meu vestido branco realçava minha pele morena daquele sol de janeiro. Júlia me ajudou com o modelito, ela inclusive me convenceu a isso. Arrumei coragem não sei daonde.

Desde que me conheço por gente, namoro Pedro, e agora com meus 33, já sou casada a 10 anos. Ele sempre foi o único na minha vida, o melhor, inclusive. Júlia tenta me convencer que existe coisa melhor nesse mundo, eu não acredito.
“Como você pode saber se só transou com ele?” – sempre ouço isso dela. Acho que sim, acho que ele é o melhor e sempre vai ser.

- Dez e quarenta. Tudo bom? – ele respondeu, sorridente e com uma voz de galã de novela, sabe?

Do “tudo bom” – somado a whiskes, caipira dentre outras coisas alcoólicas -, a ir pra casa dele foi um pulo! Nem sei como parei lá. Ele tomou todas as iniciativas, foi um “gentleman”, cuidou de mim. Adoro isso. O cuidado que o Pedro tem comigo não tem precedentes, acho que por essa (e outras coisas, claro) não brigamos e temos uma vida em casal de invejar muita gente.
Senti o corpo dele em cima de mim. Pele, carne, suor, tudo misturado. Aquele cheiro de perfume importado que eu tinha sentido no bar, se transformou num odor de colônia de 2 reais da pior qualidade.
Ato consumado e assinado eu “acordo” do meu transe. Tenho esse pequeno problema quando bebo: não perco a consciência das coisas, mas perco a conseqüência dos meus atos.

- VAGABUNDA! – grito – VAGABUNDA! VAGABUNDA!

Ele, que já havia dormido, acorda desesperado perguntando o que acontece. Saio em desespero porta afora do apartamento só com o vestido cobrindo meu corpo sem nem calçar os sapatos. Entrei no primeiro táxi que acidentalmente havia por ali.

- Júlia o que fiz?!
- Como assim, Andréia?
- Onde eu tava com a cabeça?
- O que aconteceu? Ele te fez alguma coisa?
- Não, não fez. Ou fez. Também não sei. Eu sou uma vagabunda mesmo. Como pude trair o Pedro?
- Que nada! Relaxa, guria. Tu só aproveitou a vida, isso é ótimo!

Já eram 8 horas da manhã de quinta-feira, peguei o telefone e liguei para o Pedro imediatamente:
- TE AMO! MUITO! – bradei, antes de qualquer alô que ele pudesse dar – TE AMO! Preciso de ti, vem pra cá hoje?!
- Não posso, amor. Tu sabe que trabalho amanhã. Não dá!

Desliguei. Ainda estava desesperada com o que aconteceu. Nunca tinha passado por aquilo, não sabia como reagir até então.

- Calma, Andréia. Calma. Hoje vamos sair pra jantar mais tarde e tu se acalma.
- Eu nem sei o nome dele. Se pedir pra eu voltar lá, nem sei mais onde é o apartamento. Sou uma legítima vagabunda.
- Para com isso! É nada!

De qualquer maneira fomos a um restaurante a noite. Pedimos ostras, que depois fiquei sabendo que são consideradas afrodisíacas. Já estava mais calma. Na mesa ao lado um homem solitário, aparentando seus 35 anos, calvo. Me olhava constantemente até que eu:

- Tens… horas?


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Friday, November 7th, 2008 | conto, ficção, sem destino

7 Comments to Tem horas?

will
November 8, 2008

boh, mto bom

Carol
November 8, 2008

Muito bom, adorei mas…
Leãozito, começa o conto falando que é um conto porque quando li “estava me sentindo gostosa” te imaginei de um jeito que eu não gostaria. De vestidinho branco. ECA.

Brincadeira, tá?
Beijomeliga =D

Ane Bason
November 8, 2008

É, Leão… Que o comecinho da história ficou confuso qdo tu disse que tava gostosa no vestidinho branco, ah, ficou… hehehe.
Gostei do conto, bacana mesmo.
Bjão!

buccalon
November 9, 2008

é cara… Vê uma ice?

Tati Soares
November 9, 2008

O vestido branco não me encomodou, é onde dá o toque de “ei, é um conto”. Eu fiquei assustada com a frase anterior “Aliás todos os homens do bar estavam com os olhos em mim.” – pensei, bem, o Leão diz que não gosta, será algum fetiche?
Apesar dos outros leitores não terem gostado do começo, pra mim foi o que deu a emoção, achar q era vc, mas não era. “Meu número!”
Poxa, essa moça precisa de um relógio né. Se for pra trair que seja pelo menos conscientemente, e que não beba tanto pra aproveitar bem.
PS. Sou contra a traição, mas já que ela quer ir pela cabeça da amiga…

PS. Gostei muito da história, a maneira que você contou nos seduz, deveria continuar, pode até ser a continuação desta.

marie
November 10, 2008

o texto é teu? :O
tu tem mesmo um dom que eu nem sonhava que tinhas.
parabens, boa escrita guri. vou te passar um texto de um amigo que acho que tu vai gostar. parabéns mesmo, acho que pode ter um pouco mais de envolvimento e profundidade no psicologico dos personagens, mas ta otimo. escrever como alguém do outro sexo é sempre um passo grande e meio complicado. :)

BLOG:leao:CC | Sutil
November 17, 2008

[...] o período de “oba-oba” das minhas férias tinha acabado. E como tava boa a praia: aquele sol, mar, amigas, marido, [...]

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