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Geysi tem 20 anos, carnes fartas e – suprema arrogância – gosta de si a ponto de usar um vestido vermelho e curto, deixando de fora um bom
naco das coxas generosas. E vai vestida assim para a escola, justificando-se:
- Depois da aula vou numa festa.
Convenhamos: não é de bom tom ir à aula de minissaia, qualquer que seja a cor, certo? Pode provocar tumulto. E foi exatamente o que
aconteceu neste ano de 2009 do novo milênio. Além de usar a minissaia, Geysi subiu a rampa que dá acesso às salas de aula… E alguém
sentiu-se incomodado com o vestido e as coxas da moça e falou para outro alguém, que também se incomodou. Outros alguéns compartilharam da
incomodação e começaram a xingar a moça, juntando mais gente e encurralando-a numa sala de aula da universidade Uniban, em São Bernardo, SP.
Foi necessário que a polícia fosse chamada para Geysi ser retirada do local em segurança, vestindo um jaleco branco sobre o vestido escandaloso.
Pelas cenas, calculei que umas 300 pessoas estiveram envolvidas na confusão. Tenho certeza de que pelo menos 270 estavam no tumulto pelo
tumulto. Queriam fazer algazarra, tirar fotos e participar da bagunça. Mas alguns estavam realmente irados e dispostos a dar um corretivo na
moça que ousou usar uma minissaia na escola.
O ser humano em grupo é um perigo. Perde o senso do ridículo, o medo, a capacidade de usar a lógica e é capaz de cometer as maiores
barbaridades. É assim com as torcidas organizadas, nas brigas na balada, e com aqueles grupos de jovens que destroem os orelhões.
Em grupo, somos irracionais.
E ali, dentro de uma universidade, local que tradicionalmente chama a si a vanguarda pelas “lutas democráticas”, assistimos a uma
demonstração de intolerância, brutalidade e estupidez como há muito não se via. Provavelmente a maioria dos “defensores da moral e bons
costumes” eram garotos e garotas que não veem mal em dançar aqueles funks com letras pornográficas, navegar por sites de sacanagem, dar
audiência para a mulher melancia – que mostra o útero em rede nacional de televisão – ou consumir algumas substâncias pra “ficar mais
alegre”. Essa gente tão liberal ficou zangada com o vestido da Geysi. E decidiu partir para a porrada.
E o Brasil conheceu a versão atualizada dos cara-pintadas: os neocaretas.
Parece que apenas um professor defendeu a garota. Ninguém mais. Até dá para entender: o medo de apanhar pode ter espantado os defensores
habituais… Mas e depois? Cadê as declarações estridentes daquelas ONGs que defendem a mulher? Cadê as ameaças daqueles grupos que se
mobilizam pelos direitos humanos? Cadê a pastoral do bairro? Ninguém se manifestou. Geysi está só.
Geysi Arruda é a Geni do novo milênio. Mas, diferente da Geni da música de Chico Buarque, não sofre preconceito por ser prostituta. O mal de
Geysi é ser loira. Ter olhos claros. Não ser miserável. Não ser negra. Não ser homossexual. Não ser bolsista pelo sistema de cotas.
O pecado de Geysi é não defender alguma bandeira “dos oprimidos”.
No Afeganistão, ela teria sido apedrejada.
Ainda chegaremos lá.
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Esse é um texto que recebi hoje, escrito por Luciano Pires. O cara é foda! Vale a pena a visita ao site dele.
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