conto
Sutil
Estavam quentes aqueles dias. Aliás, Porto Alegre em fevereiro é um forno. Se tu acha que o Rio Grande do Sul é só frio, vai passar uma tarde de 40º ali no centro. Infelizmente o período de “oba-oba” das minhas férias tinha acabado. E como tava boa a praia: aquele sol, mar, amigas, marido, etc…
Nada é perfeito, fato. Eu e Pedro raramente conseguimos tirar férias juntos e enquanto eu estava derretendo ele devia estar lá na beira da praia, tomando uma cerveja e… não vou comentar, isso me deixa com ciúmes. Tu sabes que antes daquele verão eu não ficava pensando nessas coisas? Algo mudou, só ainda não sei o que é.
Felizmente morar no centro tem suas vantagens – óbvio, as desvantagens, mas ainda assim compensa – chego em casa do trabalho em 5 minutos a pé. Nesses 5 minutos a minha cabeça imagina tanta coisa e tem tantas idéias, que se fosse tentar colocá-las num papel seria impossível. Porém, aquele dia tinha um ar diferente, as idéias estavam mais e mais picantes. Queria chegar em casa e ter o Pedro me esperando. Enfim…
Apartamento sozinho, cheguei, tirei toda a roupa deixado somente a calcinha e o sutiã. Fui até a janela do quarto e a escancarei. Num relance, vejo através de uma fresta do prédio ao lado dois olhos me observando. Fechei a cortina rapidamente num reflexo absurdo:
- Mas o que seria isso? Que pouca vergonha? Me observando? Desde quando esse tarado fica me olhando? Meu deus! O que já devo ter feito que ele possa ter visto?!
Naquela quarta-feira os pensamentos ficaram martelando na minha cabeça. O dia inteiro. Até meu chefe notou que eu estava um tanto quanto desnorteada. Como reagir a noite? Vou ali no vizinho tirar satisfações? Estava indignada com a situação, mas não comentei com ninguém. Nem com a Júlia, que passou o dia me perguntando porque eu estava no mundo da lua.
Sabe aqueles 5 minutos? Pois é.
Abri devagar a cortina e em um movimento rápido pude ver que ele estava esperando. Acho que não viu que fiz isso. Deixei a cortina semi-aberta. De costas, tirei toda a roupa. Vestia apenas uma calcinha que mais parecia um fragmento de pano de tão pequena. Tinha que mostrar o meu bronzeado, não? Peguei a toalha e fui ao banheiro. A idéia de ser observada estava começando a me deixar a vontade. Estava ficando relaxada com a situação. Voltei só de hobbe e deitei sob a cama para olhar TV. Ele permanecia lá, com os olhos vidrados! Não conseguia combater minha timidez, mas ao mesmo tempo eu tinha uma sensação de superioridade e queria fazer aquilo. Minha mão tremia. Estava muito nervosa. Infelizmente eu estava gostando daquele joguinho. O que será que ele estaria pensando? O que será que estaria imaginando? Ele não tem filhos? Esposa? Será mesmo “ele” ou será “ela”??
Não importa. Num movimento sutil deixei meus seios se esgueirarem para o ar livre, ficando assim os mamilos enrijecidos com a excitação do momento. Fitava o prédio vizinho, de vez em quando. “O que poderia fazer?”, pensava. Peguei um livro e fui para a sala. Deixei o hobbe escorregar nos braços, deixando assim, meus ombros totalmente nús. Aquela luz incandescente do apartamento definia com perfeição as marcas da pele bronzeada e fazia com que meu busto rosado ganhasse uma forma que invejaria muita guria de 20 anos.
(continua…)
Tem horas?
- Tens… horas? – perguntei a ele.
Não era uma pergunta como qualquer outra que tu ouve na rua todo dia. Eu estava num bar, na beira da praia em Tramandaí, a noite. Ele já havia me fitado quando entrou no bar. Aliás todos os homens do bar estavam com os olhos em mim. Estava me sentindo a “gostosona” do pedaço, afinal, meu vestido branco realçava minha pele morena daquele sol de janeiro. Júlia me ajudou com o modelito, ela inclusive me convenceu a isso. Arrumei coragem não sei daonde.
Desde que me conheço por gente, namoro Pedro, e agora com meus 33, já sou casada a 10 anos. Ele sempre foi o único na minha vida, o melhor, inclusive. Júlia tenta me convencer que existe coisa melhor nesse mundo, eu não acredito.
“Como você pode saber se só transou com ele?” – sempre ouço isso dela. Acho que sim, acho que ele é o melhor e sempre vai ser.
- Dez e quarenta. Tudo bom? – ele respondeu, sorridente e com uma voz de galã de novela, sabe?
Do “tudo bom” – somado a whiskes, caipira dentre outras coisas alcoólicas -, a ir pra casa dele foi um pulo! Nem sei como parei lá. Ele tomou todas as iniciativas, foi um “gentleman”, cuidou de mim. Adoro isso. O cuidado que o Pedro tem comigo não tem precedentes, acho que por essa (e outras coisas, claro) não brigamos e temos uma vida em casal de invejar muita gente.
Senti o corpo dele em cima de mim. Pele, carne, suor, tudo misturado. Aquele cheiro de perfume importado que eu tinha sentido no bar, se transformou num odor de colônia de 2 reais da pior qualidade.
Ato consumado e assinado eu “acordo” do meu transe. Tenho esse pequeno problema quando bebo: não perco a consciência das coisas, mas perco a conseqüência dos meus atos.
- VAGABUNDA! – grito – VAGABUNDA! VAGABUNDA!
Ele, que já havia dormido, acorda desesperado perguntando o que acontece. Saio em desespero porta afora do apartamento só com o vestido cobrindo meu corpo sem nem calçar os sapatos. Entrei no primeiro táxi que acidentalmente havia por ali.
- Júlia o que fiz?!
- Como assim, Andréia?
- Onde eu tava com a cabeça?
- O que aconteceu? Ele te fez alguma coisa?
- Não, não fez. Ou fez. Também não sei. Eu sou uma vagabunda mesmo. Como pude trair o Pedro?
- Que nada! Relaxa, guria. Tu só aproveitou a vida, isso é ótimo!
Já eram 8 horas da manhã de quinta-feira, peguei o telefone e liguei para o Pedro imediatamente:
- TE AMO! MUITO! – bradei, antes de qualquer alô que ele pudesse dar – TE AMO! Preciso de ti, vem pra cá hoje?!
- Não posso, amor. Tu sabe que trabalho amanhã. Não dá!
Desliguei. Ainda estava desesperada com o que aconteceu. Nunca tinha passado por aquilo, não sabia como reagir até então.
- Calma, Andréia. Calma. Hoje vamos sair pra jantar mais tarde e tu se acalma.
- Eu nem sei o nome dele. Se pedir pra eu voltar lá, nem sei mais onde é o apartamento. Sou uma legítima vagabunda.
- Para com isso! É nada!
De qualquer maneira fomos a um restaurante a noite. Pedimos ostras, que depois fiquei sabendo que são consideradas afrodisíacas. Já estava mais calma. Na mesa ao lado um homem solitário, aparentando seus 35 anos, calvo. Me olhava constantemente até que eu:
- Tens… horas?
Hildo Batista
Ele estava lá, preso. Fazia um ano, sete meses e quatro dias que Hildo Batista estava naquela cela.
No início ela até que era aconchegante, sabe? Afinal, esperava-se algo muito pior pra quem foi pego assaltando um banco em cidade do interior. Porém, com o tempo a carceragem estava deplorável.
Dodô, como era conhecido na cidade, 21 anos, sempre foi um cara pacífico e trabalhador. Morou sua vida toda com a mãe na cidadezinha, aonde sempre foi bem visto. Ganhava seu pouco, mas suado dinheiro numa marcenaria. Nunca chegou a conhecer o pai, sabia onde ele vivia, tinha oportunidade, mas não o procurava, pois o velho também não queria saber dele.
Enfim, no fatídico dia, ele estava “possuído” por algo sobrenatural. João, marceneiro chefe, estava passando maus bocados com a oficina e teve que demitir Batista. O dito cujo, lembrou-se que havia visto um 38 nas coisas da mãe, roubou-o e foi em direção ao único banco da cidade.
Chegou lá, mandou todos pro chão. A gerente ficou nervosa, nunca tinha passado por aquilo:
- Hildo! Pára com isso! Vamos resolver!
- Pro chão, pro chão! – gritou ele, ecoando a voz pelo saguão.
Infelizmente ela não foi pro chão e ele não teve dúvida, atirou sem piedade no meio do coração!
O povoado era tão do interior, que nem a justiça do país chegava lá, então quem fazia o julgamento era: o povo, o delegado e seus 3 subalternos. Com essa, Hildo, foi para a prisão perpétua.
A duas semanas atrás, Fabrício chegou para lhe fazer companhia na cela. Fabrício era o malandrão da cidade. Passava “o rodo” em todas as guriazinhas possíveis e imagináveis. Fazia nada da vida, ou melhor, sua vida era isso e somente isso. Nesse dia, ele foi pego pelo prefeito, adivinha com quem? Sua filha! O pai não pensou duas vezes em manda-lo pra delegacia.
- Dodô, Já descobriu como fugir daqui?
- Como assim? Nunca nem pensei nisso.
- Capaz? Tu vai ficar trancado o resto da vida aqui?
E assim foi – o malandro incitando o pacato presidiário a fugir dali. Algumas horas se passaram e já tinham montado um plano de fuga: dia, hora, maneira, tudo! Tudo esquematizado, só faltava aguardar.
Dia 24 de junho, céu ensolarado, frio normal para uma cidade do sul. Lá foram eles: driblaram o único guarda que ficava por ali, roubaram as chaves, prenderam o próprio desacordado e sumiram. Fabrício, que de malandro não tinha nada, voltou pra casa. Foi pego 4 horas depois.
Hildo Batista sumiu, desapareceu do mapa. Ninguém sabe onde ele foi parar. Uns dizem que foi comido por raposas do mato, outros juram de pé junto que viram disco voador, ET’s e ele foi abduzido. Tem até os que conseguem falar com o espírito dele, que vaga pela noite sombria.
Exatos 2 anos e 2 meses depois, 23 horas da noite, toca o telefone da delegacia:
- Alô, delegado?
- Sim, o próprio.
- É o Dodô e…
- Dodô, seu “fidamãe”! Onde tu tá maldito? Vou te caçar!
- Calma! Tô em São Paulo. – exatos 1193 quilômetros da pequena cidade.
- Como tu foi parar ae?
- Não importa. O que importa é que eu quero voltar. Quero voltar a ser preso aí.
- Tu é louco?
- Fiquei preso 1 ano e 5 meses aqui, mas sei que tenho que terminar de cumprir minha pena, só não tenho como voltar.
- E eu não tenho como buscar.
- Mas…
- Dodô, eu vou fingir que essa ligação nunca aconteceu. Vive tua vida, rapaz!
- Mas seu deleg…
- Boa noite. Passar bem. – disse desligando o telefone.
Dodô, hoje, é conhecido por “Jesus” na Praça da Sé. Mendigo, maltrapilho, sem um puto no bolso. Vive de esmolas e restos de comida achadas no lixo, ou no mercado municipal. Quando consegue, dorme em abrigo especial para esse tipo de pessoa. Se não consegue, tenta a sorte nos inúmeros viadutos e marquises do centro da cidade grande. Às vezes passa dias sem comer e higiene que é bom, nem pensar.
Realmente, a cadeia de Santa Halinges era melhor.
Das Coisas que Só Acontecem Comigo
Um belo meio-dia de terça-feira, estou almoçando com meus colegas de trabalho num restaurante de uma grande rede de pizzarias, quando o meu telefone celular toca. Era de um número que eu nunca vi na vida, mas às 10 horas da manhã já havia tentando o contato comigo sem sucesso.
Prontamente eu, na minha grande educação:
- Alô?
A voz era de um senhor, digamos com seus 60 anos, do outro lado:
- Ahm… Oi tudo bem?
- Tudo bem.
- Com quem eu to falando?
Nunca, mas nunca mesmo fale o seu nome nesse momento! Normalmente as surpresas não são muito boas. Seja educado e retruque:
- Com quem tu quer falar?
Comecei a notar um certo tom de vergonha na voz do rapaz, mas não dei bola:
- Ahm… er… É que eu peguei esse telefone lá na prefeitura(??) e dizia… (Pausa. Aqui ele falou DUAS vezes alguma coisa que eu não consegui de maneira nenhuma compreender).
- Desculpa, mas não consegui entender. Enfim, o que o senhor gostaria?
Hesitou 2 segundos, e:
- Ahm. Você faz programa?!
Para tudo! Melhor, eu devia ter parado tudo por aqui. Como sou um menino inocente(cof, cof) e desenvolvedor de programas/sites(literalmente um moço que troca serviços por dinheiro), pensei se tratar de alguma proposta de emprego/freela bizarro, sei lá. Ao mesmo tempo que esse pensamento veio a mente, o lado espírito de porco também. Nesses casos o que se faz? Um pergunta que pode ter várias respostas:
- Que tipo de programa?
(10 segundos de pausa, sério! Esse foi o único momento da minha vida que eu queria ter visto a minha cara.)
- Hm… Er… Desculpa eu entrar assim na sua intimidade(pausa), mas você é homossexual?!
-QUE?!!?!?! Assim? Sem nem uma jantinha antes?
Tá, esse foi o segundo momento da vida que queria ter visto a minha expressão. Simplesmente desandei a rir muito. Pensando agora, eu não sei se era de vergonha alheia, ou própria. Todo mundo do restaurante parou. Meus colegas me olharam com aquela cara de: “ahm? tá loco?”. Se eu tivesse apertado pra ir no banheiro, certamente teria acontecido um acidente.
Eu não sei quanto tempo fiquei rindo da situação, mas após um bom tempo, eu só consegui responder um sonoro:
-NÃO!!
O velho viado resmungou alguma coisa que eu não consegui prestar atenção, mas era algo tipo “desculpa, liguei errado”.
Agora eu fico pensando: eu sabia que ia dar merda, porque continuei?
PS1: Esqueci de pegar o nome do “véio”, mas ainda tenho o telefone em “ligações recebidas” se alguém tiver interesse em ganhar um dinheiro extra.
PS2: tenho até medo do que o AdSense me reserva para esse post. Ainda não aprendi a usar direito ele, então seja o que Deus quiser.