saudade
Top 6 Coisas que Eu Sinto Falta do RS
Após um ano em São Paulo, muita coisa já aconteceu: casei, separei, fiquei, apaixonei(suspiro), troquei de emprego – melhor, fui forçado a trocar – viajei, conheci gente, muita gente, fiz novos amigos, conheci coisas e lugares nunca antes imaginados, “whatever”. De certa forma me acostumei e muito com a cidade, que apesar de ter um ritmo e estrutura diferente do que eu estava acostumado lá na “província”, ela é acolhedora.
Sinto-me muito bem aqui, ainda que esteja sozinho nesse momento. Quando falo sozinho, me refiro a família e/ou alguém do meu lado, compartilhando conquistas, dores, felicidade, derrotas, filme francês ruim no MaxPrime sábado à noite, enfim. Amigos(as) sei que tenho uma “meia dúzia de dois ou três” que se eu ligar, vamos a Starbucks rir um pouco.
De qualquer forma, substituí muitas coisas que tinha lá na Província de São Pedro com algo semelhante aqui, mas algumas são insubstituíveis! Essas as quais eu listo abaixo.
Família

Mesmo tendo contato direto com as pessoas de lá falta aquele calor humano e o contato. Sempre fui muito ligado a minha família – mãe, avós, irmãos – gosto disso e se pudesse, e desse, trazia todos juntos para cá.
Amigos

Porra! Esse nem precisava falar, porque – bah! – é intrínseco que isso é foda. Aquela partida de WE/GH – que eu sempre ganhava – no sabadão de tarde, ou aquela de sinuca – que eu sempre perdia – no Pool no domingo de noite regado a Coca-Cola(pois é) e batata-frita, são coisas que sinceramente não tem preço. Fora, claro, uma boa saída fotográfica na Redenção.
Pôr-do-Sol no Guaíba

Sem a foto eu não teria como descrever o quanto é do caralho isso. A Usina do Gasômetro, num final de tarde domingo, mais precisamente as 18:22, é algo que alimenta a alma de uma forma sem precedentes. Podem me chamar de “viado” agora, mas vai afetar muito gaúcho também(sem piadas). O negócio simplesmente LOTA. Todo mundo curtindo um bom chimarrão na maior paz, muitas vezes depois de um bom Grenal, dividindo a mesma cuia. Simplesmente foda!
Viajar por…

Se tem uma coisa que eu gosto é pegar meu carro e sair por aí. Quando fiquei sabendo que vinha pra SP, imediatamente disse: “Vou de carro!”. Aproveita-se muito mais a viagem, curte a paisagem e tal. Assim como em qualquer lugar do Brasil, o RS tem coisas que tu é obrigado a parar o carro e ficar contemplando. A da foto acima, por exemplo, foi feita na viajem pra Cambará do Sul, aquela cidade que tem os canions na divisa com Santa Catarina, sabe?
Xis Galinha do King’s Kão

Eu como, e como MUITO. Não só eu, mas qualquer bom gaúcho come, minha filha. No meu caso tenho que manter minha barriga, que não é grande, mas é saliente. Visto isso, uma das coisas que eu mais senti diferença foi a comida. A falta de feijão preto nos restaurantes, uma boa pizza de picanha* regada com um bom catchup ou um ENORRRRRMMMMEEEEE Xis Galinha do King’s Kão. Engane-se você, paulista, que aqui em São Paulo tem xis galinha também. Convido a todos que quiserem ter essa experiência única de comer algo parecido com isso a uma viagem ao Rio Grande do Sul. Sirvo de guia, só não pago passagem. Ha!
Isso que aqui nem comentei o churrascão “roots” no meio do mato, na beira do rio que passa atrás da casa dos meus avós.
Trânsito

O grande mal da cidade grande. Cara isso é algo que não tem explicação. Imagine, paulista, ir do Morumbi a Guarulhos(40 kms) em 40 minutos as 18 horas da tarde(via marginais). Impossível, fato! Ok! Nem vou comparar a grandeza das cidades e “papapa”, mas isso é algo facilmente conseguível por lá. Nesse mesmo espaço de tempo aqui em SP, eu ando da Rebouças até Vl. Olímpia(6,5 kms). Complicadíssimo, não? Eu acho. Principalmente levando em conta que tenho pouca(pra não dizer nenhuma) paciência no trânsito.
Gauchada: aquela “tranquerinha” ali em Canoas de manhã e de tarde não é nada. Believe me! Ah! Quase ia me esquecendo da Free-Way em véspera de feriado. Troco de bala.
Tem muito mais coisas, muitas outras que eu nem lembro, porque já me acostumei. A questão é que sinto a falta, mas não penso em voltar em definitivo tão cedo. As oportunidades, determinadas pessoas e o crescimento proporcionado não tem explicação. Um dia voltarei, sim. Afinal meu objetivo sempre são as coisas que eu sou apaixonado e luto por isso.
* Sim paulistada, lá tem pizza de picanha, strogonoff, e muitas outras coisas que vocês acham bizarrices, incluindo o catchup. \o/
Hildo Batista
Ele estava lá, preso. Fazia um ano, sete meses e quatro dias que Hildo Batista estava naquela cela.
No início ela até que era aconchegante, sabe? Afinal, esperava-se algo muito pior pra quem foi pego assaltando um banco em cidade do interior. Porém, com o tempo a carceragem estava deplorável.
Dodô, como era conhecido na cidade, 21 anos, sempre foi um cara pacífico e trabalhador. Morou sua vida toda com a mãe na cidadezinha, aonde sempre foi bem visto. Ganhava seu pouco, mas suado dinheiro numa marcenaria. Nunca chegou a conhecer o pai, sabia onde ele vivia, tinha oportunidade, mas não o procurava, pois o velho também não queria saber dele.
Enfim, no fatídico dia, ele estava “possuído” por algo sobrenatural. João, marceneiro chefe, estava passando maus bocados com a oficina e teve que demitir Batista. O dito cujo, lembrou-se que havia visto um 38 nas coisas da mãe, roubou-o e foi em direção ao único banco da cidade.
Chegou lá, mandou todos pro chão. A gerente ficou nervosa, nunca tinha passado por aquilo:
- Hildo! Pára com isso! Vamos resolver!
- Pro chão, pro chão! – gritou ele, ecoando a voz pelo saguão.
Infelizmente ela não foi pro chão e ele não teve dúvida, atirou sem piedade no meio do coração!
O povoado era tão do interior, que nem a justiça do país chegava lá, então quem fazia o julgamento era: o povo, o delegado e seus 3 subalternos. Com essa, Hildo, foi para a prisão perpétua.
A duas semanas atrás, Fabrício chegou para lhe fazer companhia na cela. Fabrício era o malandrão da cidade. Passava “o rodo” em todas as guriazinhas possíveis e imagináveis. Fazia nada da vida, ou melhor, sua vida era isso e somente isso. Nesse dia, ele foi pego pelo prefeito, adivinha com quem? Sua filha! O pai não pensou duas vezes em manda-lo pra delegacia.
- Dodô, Já descobriu como fugir daqui?
- Como assim? Nunca nem pensei nisso.
- Capaz? Tu vai ficar trancado o resto da vida aqui?
E assim foi – o malandro incitando o pacato presidiário a fugir dali. Algumas horas se passaram e já tinham montado um plano de fuga: dia, hora, maneira, tudo! Tudo esquematizado, só faltava aguardar.
Dia 24 de junho, céu ensolarado, frio normal para uma cidade do sul. Lá foram eles: driblaram o único guarda que ficava por ali, roubaram as chaves, prenderam o próprio desacordado e sumiram. Fabrício, que de malandro não tinha nada, voltou pra casa. Foi pego 4 horas depois.
Hildo Batista sumiu, desapareceu do mapa. Ninguém sabe onde ele foi parar. Uns dizem que foi comido por raposas do mato, outros juram de pé junto que viram disco voador, ET’s e ele foi abduzido. Tem até os que conseguem falar com o espírito dele, que vaga pela noite sombria.
Exatos 2 anos e 2 meses depois, 23 horas da noite, toca o telefone da delegacia:
- Alô, delegado?
- Sim, o próprio.
- É o Dodô e…
- Dodô, seu “fidamãe”! Onde tu tá maldito? Vou te caçar!
- Calma! Tô em São Paulo. – exatos 1193 quilômetros da pequena cidade.
- Como tu foi parar ae?
- Não importa. O que importa é que eu quero voltar. Quero voltar a ser preso aí.
- Tu é louco?
- Fiquei preso 1 ano e 5 meses aqui, mas sei que tenho que terminar de cumprir minha pena, só não tenho como voltar.
- E eu não tenho como buscar.
- Mas…
- Dodô, eu vou fingir que essa ligação nunca aconteceu. Vive tua vida, rapaz!
- Mas seu deleg…
- Boa noite. Passar bem. – disse desligando o telefone.
Dodô, hoje, é conhecido por “Jesus” na Praça da Sé. Mendigo, maltrapilho, sem um puto no bolso. Vive de esmolas e restos de comida achadas no lixo, ou no mercado municipal. Quando consegue, dorme em abrigo especial para esse tipo de pessoa. Se não consegue, tenta a sorte nos inúmeros viadutos e marquises do centro da cidade grande. Às vezes passa dias sem comer e higiene que é bom, nem pensar.
Realmente, a cadeia de Santa Halinges era melhor.